terça-feira, 8 de setembro de 2009

Enunciando

Perco-me em tuas linhas… deslizando por ti, substantivo de inúmeros adjetivos. Me pego cedendo aos teus tantos verbos, me fazendo predicado de tantas orações. Por vezes objeto, perdido entre o direto e o indireto, apenas me sinto parte de tuas palavras e me deixo levar. Conjuga-me, flexiona-me, deriva-me… pois de tudo, em tudo que são essas linhas oratórias de vida nossa, somos, os dois, sujeitos de tantas redações mais. Reescreve-me, porque assim não sou um só, me tornando mutável no movimento dos teus lábios.

Porque assim, não sou só meu ou teu. Não sou só tudo, muito menos nada… porque palavras não existem para o altar, como eu também não. Nem tu. Mas faz-me vocativo, ante tudo aquilo que precisardes falar. E no aposto, bota tudo aquilo que eu precisar ouvir.

Amo-te assim, eu, sujeito oculto… por vezes indefinido.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Destino


Será como se nem mesmo você soubesse mais a sua voz depois de semanas no experimentalismo existencial da solidão.

Porque solidão também é experiência , e das mais radicais.


Será como o primeiro erro inviolável , a origem que sempre está aí , no seu jeito de tremer as mãos de falar como um big bang se explodindo pra dentro , no andar de marionete com alguns fios cortados.
Será como se o comandante decidisse usar de uma vez por todas as armas disponíveis , todas , e elas fossem infinitamente destrutivas.

Será como se fosse assim ...depois que você tiver nascido.
Será como uma guerra perdida ou vencida tanto faz , cada explosão se prolonga na outra e esta na outra e esta...

Seria definitivamente a marcha da história , se você tiver destino.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Caminhar

O andarilho nunca persegue sua própria sombra.

Por mais que ame a humanidade , conheça pessoas e dê a elas sábios conselhos , o que mais interessa é que ele se solte da sua sombra.

Durante um longo período da sua caminhada solitária , o andarilho escutou todos os conselhos da sombra , assim como a sombra dependia de todas as idéias do andarilho – afinal , ambos precisavam sobreviver.

O andarilho trocou inúmeras palavras obscuras com sua sombra , de modo que , na hábil manutenção de enigmas para terceiros , ficassem bons amigos durante o seu inevitável convívio.
Mas, quando a luz do conhecimento bate , inesperadamente , sobre o caminho do deserto, algo desaparece como num piscar de olhos.

Faço, enfim, a pergunta : quem sumiu de repente com a luz do sol?
O andarilho ou a sombra?

Ora , a própria sombra teria dito , no início da caminhada , que “todos reconhecerão somente as tuas opiniões ali : ninguém se lembrará da sombra”.

É preciso primeiro perder-se no deserto para , quem sabe , reencontrar-se na sua própria imaginação. Perder-se novamente em outros desertos e reencontrar-se novamente em outro lugar , ou outro pensamento , ou outra vida...